O ápice da revelação de Deus
Durante séculos, homens olharam para o céu tentando compreender quem Deus é.
Alguns O encontraram no fogo. Outros, no silêncio. Alguns O conheceram em guerras, outros no deserto. Houve quem O percebesse no estrondo de uma montanha e quem O reconhecesse no sussurro de uma brisa.
E, à medida que a revelação avançava, Deus foi sendo conhecido por nomes, títulos e atributos que revelavam aspectos de Sua natureza.
Moisés conheceu YHWH.
Davi cantou sobre o Pastor.
Isaías tremeu diante do Santo de Israel.
Jeremias anunciou o Deus Vivo.
Ezequiel contemplou a Glória do Senhor.
Daniel viu o Ancião de Dias.
Amós proclamou o Senhor dos Exércitos.
Malaquias perguntou: “Não temos nós todos um mesmo Pai?”
Até que chegou Jesus.
E talvez uma das maiores revoluções trazidas por Cristo não tenha sido apresentar um novo Deus, mas revelar plenamente quem era o Deus que Israel já conhecia.
O Deus que estava acima deles queria estar perto deles.
O Rei queria filhos.
O Criador queria relacionamento.
O Senhor dos Exércitos queria ser chamado de Pai.
MOISÉS: O EU SOU
Quando Moisés perguntou qual nome deveria apresentar aos filhos de Israel, Deus respondeu:
“EU SOU O QUE SOU.”
Êxodo 3:14
O hebraico nos conduz à revelação de YHWH, o Deus que não depende de nada para existir.
Antes que qualquer coisa fosse, Ele é.
Antes do primeiro átomo, Ele é.
Antes do primeiro homem, Ele é.
Antes do primeiro problema, Ele é.
Deus não diz: “Eu fui”. Também não diz simplesmente: “Eu serei”.
EU SOU.
Sua existência não está presa ao relógio que nos aprisiona.
Mas existe algo interessante.
O mesmo Moisés que apresentou o Deus eterno como YHWH também escreveu:
“Não é ele teu Pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?”
Deuteronômio 32:6
O EU SOU também é Pai.
A transcendência nunca anulou a proximidade.
DAVI: O MEU PASTOR
Davi conheceu Deus a partir da linguagem que fazia parte de sua própria história.
Antes de ser rei, Davi foi pastor.
Talvez por isso tenha compreendido algo que outros poderiam não perceber da mesma maneira:
“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.”
Salmo 23:1
Davi não disse apenas que Deus era um pastor.
Disse:
meu Pastor.
Existe intimidade nesse pronome.
O Deus de Abraão, Isaque e Jacó também era o Deus que caminhava com Davi pelos vales.
No Salmo 18, ele amplia:
“O SENHOR é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador.”
Salmo 18:2
Pastor quando preciso de direção.
Rocha quando tudo ao redor desmorona.
Fortaleza quando estou vulnerável.
Libertador quando aquilo que me prende é maior do que minhas próprias forças.
Davi descobriu que Deus não possui apenas nomes.
Ele possui relação.
ISAÍAS: O SANTO DE ISRAEL
Se existe uma expressão profundamente associada à teologia de Isaías, é:
O Santo de Israel.
Isaías viu o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono e ouviu os serafins proclamando:
“Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos.”
Isaías 6:3
Diante daquela visão, Isaías não se sentiu importante.
Sentiu-se pequeno.
Porque quanto mais claramente enxergamos a santidade de Deus, menos conseguimos romantizar nossa própria condição.
Mas o mesmo Isaías que viu o Deus três vezes Santo também escreveu:
“Mas tu és nosso Pai...”
Isaías 63:16
E novamente:
“Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro.”
Isaías 64:8
Veja o paradoxo.
Santo, mas Pai.
Elevado, mas próximo.
Assentado no trono, mas interessado no barro.
A santidade de Deus não significa distância emocional.
Sua grandeza não impede Sua paternidade.
JEREMIAS: O DEUS VIVO
Jeremias viveu cercado por uma sociedade apaixonada por ídolos.
Deuses fabricados.
Imagens produzidas pelas mãos daqueles que depois se ajoelhavam diante delas.
Por isso Jeremias estabelece uma diferença brutal:
“Mas o SENHOR é verdadeiramente Deus; ele é o Deus vivo e o Rei eterno.”
Jeremias 10:10
Os ídolos precisavam ser carregados.
YHWH carregava Seu povo.
Os ídolos tinham boca, mas não falavam.
O Deus de Jeremias falava.
Os ídolos possuíam olhos, mas não enxergavam.
O Deus de Israel via até aquilo que os homens tentavam esconder.
Ele é o Deus Vivo.
Mas Jeremias também registra uma expectativa extraordinária de Deus para Seu povo:
“Tu me chamarás Meu Pai e de mim não te desviarás.”
Jeremias 3:19
Perceba a direção da revelação.
O Deus Vivo deseja ouvir dos homens:
Meu Pai.

EZEQUIEL: O DEUS DA GLÓRIA
Ezequiel viu aquilo que palavras quase não conseguem carregar.
Rodas.
Querubins.
Fogo.
Movimento.
Trono.
Resplendor.
E, acima de tudo, a manifestação da Glória de YHWH.
Ao final de sua primeira grande visão, escreve:
“Esta era a aparência da semelhança da glória do SENHOR.”
Ezequiel 1:28
Ezequiel caiu com o rosto em terra.
Há momentos em que conhecer Deus produz palavras.
Há outros em que produz silêncio.
E existem momentos em que só conseguimos cair.
A glória que Ezequiel contemplou mostrava que Deus não poderia ser reduzido às dimensões de um templo, de uma cidade ou de uma estrutura religiosa.
Deus era maior.
Muito maior.
DANIEL: O ANCIÃO DE DIAS
Daniel estava em terra estrangeira.
Reinos surgiam.
Impérios desapareciam.
Reis se consideravam deuses.
Governantes acreditavam controlar a história.
Então Daniel recebe uma visão:
“Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou.”
Daniel 7:9
Que título extraordinário:
Ancião de Dias.
Antes de Nabucodonosor, Ele estava lá.
Antes da Babilônia, Ele estava lá.
Antes dos medos e persas, Ele estava lá.
Antes de Alexandre, antes de Roma, antes de qualquer império humano, Ele estava lá.
Reinos têm data de nascimento e data de morte.
Deus não.
Governantes ocupam tronos temporariamente.
O Ancião de Dias não recebeu Seu trono de ninguém.
OS PROFETAS E AS MUITAS FACES DA MESMA REVELAÇÃO
Os demais profetas continuam ampliando nossa compreensão.
Oseias apresenta Deus com imagens de Marido e Pai. Em Oseias 11, Deus descreve Seu relacionamento com Israel utilizando uma das imagens paternas mais emocionantes do Antigo Testamento.
Joel proclama o Deus:
“misericordioso, compassivo e tardio em irar-se.”
Joel 2:13
Amós anuncia repetidamente o SENHOR, Deus dos Exércitos.
Miqueias termina praticamente maravilhado diante do caráter perdoador de Deus:
“Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade?”
Miqueias 7:18
Habacuque chama Deus de Santo e Rocha.
Sofonias apresenta o Rei de Israel no meio do Seu povo e descreve Deus como poderoso para salvar.
Ageu e Zacarias repetem incansavelmente:
SENHOR dos Exércitos.
E então chegamos a Malaquias, encerrando o corpus profético do Antigo Testamento em nossas Bíblias.
E encontramos uma pergunta:
“Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus?”
Malaquias 2:10
Isso é extraordinário.
A revelação começa em Gênesis com:
“No princípio, criou Deus...”
E, próximo ao encerramento profético do Antigo Testamento, ouvimos:
“Não temos nós todos um mesmo Pai?”
O Criador começa a ser percebido não apenas pelo que fez, mas pela relação que deseja estabelecer com aquilo que fez.
Então vem o silêncio entre os Testamentos.
Até que uma voz surge novamente.
ENTÃO CHEGOU JESUS
Jesus não veio apresentar outro Deus.
Ele veio tornar visível aquele que ninguém podia ver plenamente.
João escreve:
“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou.”
João 1:18
E aqui chegamos ao coração de tudo.
Jesus poderia ter ensinado Seus discípulos a começar suas orações dizendo:
“Ó Grande Rei.”
“Ó Senhor dos Exércitos.”
“Ó Altíssimo.”
“Ó Ancião de Dias.”
“Ó Santo de Israel.”
Nenhum desses títulos estaria errado.
Todos carregam verdades profundas.
Mas quando perguntaram como deveriam orar, Jesus disse:
“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus...”
Mateus 6:9
Pai nosso.
Talvez estejamos tão acostumados com essas palavras que não percebamos mais o terremoto teológico contido nelas.
O Deus do Sinai:
Pai.
O Deus diante de quem Isaías tremeu:
Pai.
O Deus cuja glória derrubou Ezequiel:
Pai.
O Ancião de Dias contemplado por Daniel:
Pai.
O Senhor dos Exércitos anunciado pelos profetas:
Pai.
Não deixou de ser Rei para ser Pai.
Não deixou de ser Santo para ser Pai.
Não deixou de ser Juiz para ser Pai.
Não deixou de ser Todo-Poderoso para ser Pai.
Ele é tudo isso.
Mas Cristo nos conduziu para dentro de uma intimidade que títulos de majestade, sozinhos, não conseguiriam expressar.
QUEM ME VÊ, VÊ O PAI
Então Filipe faz um pedido que, de alguma maneira, representa a busca da humanidade inteira:
“Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.”
João 14:8
Mostra-nos Deus.
Mostra-nos quem Ele realmente é.
Mostra-nos Seu rosto.
E Jesus responde:
“Quem me vê a mim vê o Pai.”
João 14:9
Aqui está o ápice.
Os profetas falaram sobre Deus.
Jesus é a revelação culminante de Deus.
Os profetas descreveram atributos.
No Filho, vemos o caráter do Pai revelado de maneira definitiva.
Quer saber como Deus trata pecadores arrependidos?
Olhe para Jesus.
Quer saber como Deus olha para os esquecidos?
Olhe para Jesus.
Quer saber o que Deus pensa sobre hipocrisia religiosa?
Olhe para Jesus.
Quer compreender Sua misericórdia?
Olhe para Jesus.
Quer conhecer o coração do Pai?
Olhe para o Filho.
Porque o Filho não veio esconder o Pai.
Veio revelá-Lo.
O REI QUER FILHOS
Existe algo profundamente belo nisso.
O Criador poderia exigir apenas criaturas obedientes.
O Rei poderia exigir apenas súditos.
O Juiz poderia exigir apenas réus diante de Sua sentença.
O Senhor dos Exércitos poderia exigir apenas soldados.
Mas o Pai deseja filhos.
E filhos não são apenas aqueles que trabalham na casa.
Filhos pertencem à casa.
Talvez seja exatamente aqui que muita religiosidade adoeça.
Ela consegue formar servos que trabalham para Deus, mas não filhos que descansam no Pai.
Gente que sabe obedecer, mas não sabe pertencer.
Gente que conhece mandamentos, mas desconhece abraço.
Gente que sabe falar sobre Deus, mas não aprendeu a caminhar com Deus.
O Evangelho não diminui a majestade divina.
Ele nos aproxima dela.
Não transforma Deus em alguém menor.
Transforma nossa compreensão de relacionamento com Ele em algo infinitamente maior.
DO ALTÍSSIMO AO ABA
Ele continua sendo Altíssimo.
Continua sendo EU SOU.
Continua sendo Santo de Israel.
Continua sendo Rocha.
Continua sendo Pastor.
Continua sendo Deus Vivo.
Continua sendo Senhor dos Exércitos.
Continua sendo Ancião de Dias.
Continua sendo Grande Rei.
Mas Paulo mostra até onde o Evangelho nos conduziu:
“Recebestes o Espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.”
Romanos 8:15
Do Altíssimo ao Aba.
Não porque Deus tenha descido de Sua posição.
Mas porque, por meio de Cristo, nós fomos aproximados.
Essa talvez seja a beleza de toda a história bíblica.
Moisés revelou o EU SOU.
Davi cantou sobre o Pastor.
Isaías contemplou o Santo.
Jeremias anunciou o Deus Vivo.
Ezequiel caiu diante da Glória.
Daniel viu o Ancião de Dias.
Amós proclamou o Senhor dos Exércitos.
Malaquias falou do Pai.
Então Jesus chegou e disse:
“Quem me vê, vê o Pai.”
Os profetas revelaram Seus atributos.
O Filho revelou Seu coração.
Por isso, talvez o ápice da revelação de quem Deus é não esteja apenas em descobrir que Ele governa galáxias, sustenta a existência, derrota exércitos e reina acima do tempo.
Está em descobrir que aquele diante de quem anjos cobrem o rosto permite que Seus filhos levantem os olhos para o céu e digam:
Pai nosso.
O Deus que está acima de tudo decidiu estar perto.
O Rei quer filhos.
O Criador quer relacionamento.
O Todo-Poderoso quer proximidade.
E o Deus que possui muitos nomes escolheu ensinar Seus filhos a chamá-Lo de:
PAI.
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