MATHEUS GABASSI

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Impostor, Usurpador e Libertador

Impostor, Usurpador e Libertador

Existe uma guerra acontecendo dentro do homem antes mesmo de ele perceber que está em guerra.

Não começa do lado de fora.

Começa dentro.

Paulo descreve algo profundamente desconfortável quando fala de uma velha natureza que precisa ser abandonada:

 

“Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos; a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade.” - Efésios 4:22-24

 

Preste atenção às palavras.

Existe um velho homem.

E existe um novo homem.

Um precisa ser despido.

O outro precisa ser vestido.

Porque talvez uma das maiores batalhas espirituais da existência humana seja esta:

viver durante tanto tempo com uma versão falsificada de nós mesmos que começamos a acreditar que ela é quem realmente somos.

É aqui que aparecem três personagens nesta história.

O Impostor.

O Usurpador.

E o Libertador.

E entender quem é quem muda completamente a maneira como enxergamos pecado, tentação, libertação e identidade.

 

 

 

O IMPOSTOR: A VELHA NATUREZA

O primeiro inimigo nem sempre parece um inimigo.

Porque ele fala com a nossa voz.

Carrega nossas memórias.

Conhece nossos desejos.

Habita nossos hábitos.

O velho homem é um impostor porque tenta assumir a identidade de alguém que ele não deveria mais representar.

Ele diz:

“Você é assim.”

“Esse é o seu jeito.”

“Você nunca vai mudar.”

“Isso faz parte de você.”

Mas nem tudo aquilo que está em você define quem você foi criado para ser.

Algumas coisas foram adquiridas.

Outras foram aprendidas.

Outras foram herdadas.

Outras foram alimentadas.

E outras são simplesmente consequências de uma humanidade desconectada de sua origem.

Paulo escreve:

 

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum.” - Romanos 7:18

 

Essa velha natureza é marcada pela corrupção do pecado.

Ela deseja independência de Deus.

Quer prazer sem propósito.

Poder sem caráter.

Liberdade sem limites.

Espiritualidade sem submissão.

Quer sentar no trono que pertence ao Criador.

O pecado não apenas nos faz praticar coisas erradas.

Ele distorce a percepção sobre quem somos.

O problema é mais profundo do que comportamento.

É identidade.

Antes da queda, Deus havia revelado o projeto:

 

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” - Gênesis 1:26

 

Essa era a referência.

Não o trauma.

Não a rejeição.

Não o vício.

Não a luxúria.

Não a mentira.

Não a violência.

Não o ego.

Não aquilo que aconteceu conosco.

A referência original era Deus.

O pecado criou uma caricatura da imagem.

E depois de tanto tempo olhando para a caricatura, o homem esqueceu o original.

Essa é a obra do impostor.

Fazer você acreditar que sua deformação é sua identidade.

 

 

 

O USURPADOR: QUEM TENTA OCUPAR AQUILO QUE NÃO LHE PERTENCE

Mas existe outro personagem.

O usurpador.

Usurpar significa tomar indevidamente uma posição, autoridade ou propriedade que pertence a outro.

O inferno é usurpador por natureza.

Satanás não cria.

Ele copia.

Não gera vida.

Parasita aquilo que está vivo.

Não possui luz própria.

Trabalha tentando apagar, distorcer ou falsificar a luz que Deus colocou no homem.

Jesus disse sobre ele:

 

“Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.” - João 8:44

 

Observe novamente.

Mentira.

Por quê?

Porque a guerra espiritual é profundamente uma guerra pela verdade sobre Deus e sobre quem somos.

O usurpador olha para a velha natureza e encontra nela pontos de acesso.

Orgulho.

Ódio.

Luxúria.

Ganância.

Amargura.

Mentira.

Medo.

Desejos desordenados.

Feridas não tratadas.

Hábitos alimentados por anos.

Tudo aquilo que a carne deseja pode se transformar em terreno para influência quando encontra concordância dentro do homem.

Por isso Paulo escreve:

 

“Não deem lugar ao diabo.” - Efésios 4:27

 

Lugar.

A palavra é assustadora.

Porque significa que existem territórios da existência humana que podem ser entregues.

Pensamentos.

Desejos.

Hábitos.

Relacionamentos.

Sexualidade.

Dinheiro.

Poder.

Ego.

A velha natureza abre portas.

O usurpador tenta atravessá-las.

Ele tenta.

Influencia.

Oprime.

Escraviza.

E, nas situações extremas apresentadas pelos próprios Evangelhos, espíritos malignos chegam a dominar pessoas de maneira profunda.

Mas existe algo importante:

o diabo continua sendo usurpador.

Aquilo nunca foi dele.

A mente não foi criada para as trevas.

O corpo não foi criado para a escravidão.

A alma não foi criada para a mentira.

A humanidade não foi criada à imagem de Satanás.

Foi criada à imagem de Deus.

Por isso toda obra demoníaca é uma invasão.

Toda escravidão espiritual é uma ocupação ilegítima.

Todo pecado tenta estabelecer um governo onde Deus deveria reinar.

O inimigo não quer simplesmente que você peque.

Ele quer que você esqueça quem deveria ser.

Porque quando alguém perde a identidade, torna-se muito mais fácil controlar seus comportamentos.

 

 

 

O LIBERTADOR

Então Jesus entra na história.

E algo impressionante acontece nos Evangelhos.

Onde Cristo chega, territórios começam a mudar de proprietário.

Demônios saem.

Cativos são libertos.

Pecadores são restaurados.

Doentes são curados.

Culpados são perdoados.

Excluídos voltam para a mesa.

Mortos começam a viver.

Jesus não veio simplesmente melhorar versões quebradas do velho homem.

Ele veio inaugurar uma nova humanidade.

Por isso Ele não disse apenas:

“Comportem-se melhor.”

Ele disse:

 

“É necessário que vocês nasçam de novo.” - João 3:7

 

Porque reforma não resolveria.

Era necessária regeneração.

Não bastava pintar a velha casa.

Era necessário nascer outra vez.

E essa libertação acontece por duas forças inseparáveis na obra de Deus:

a Palavra e o Espírito.

Jesus disse aos discípulos:

 

“Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado.” - João 15:3

 

A Palavra limpa.

Porque a mentira construiu prisões.

E somente a verdade pode desmontá-las.

Há pessoas pedindo libertação de demônios quando também precisam ser libertas de ideias.

Pensamentos.

Crenças.

Narrativas.

Mentiras sobre Deus.

Mentiras sobre si mesmas.

Mentiras que repetiram durante décadas.

A Palavra entra onde a mentira construiu fortalezas.

E começa a limpar.

Mas não basta limpar.

É necessário viver.

Por isso Paulo diz:

 

“E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês.” - Romanos 8:11

 

A Palavra limpa.

O Espírito vivifica.

Uma remove aquilo que contaminou.

O outro manifesta aquilo que Deus planejou.

É limpeza e vida.

Verdade e poder.

Palavra e Espírito.

 

NÃO É APENAS EXPULSAR O USURPADOR. É DESTRONAR O IMPOSTOR.

Talvez aqui esteja um dos maiores problemas de uma espiritualidade focada apenas em batalha espiritual.

Há quem queira expulsar o usurpador sem abandonar o impostor.

Quer repreender Satanás sem crucificar a carne.

Quer expulsar demônios sem abandonar hábitos.

Quer libertação sem arrependimento.

Quer autoridade sem transformação.

Mas Jesus alertou sobre uma casa que é limpa e permanece vazia.

 

“Quando o espírito imundo sai do homem, passa por lugares áridos procurando repouso e não encontra. Então diz: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Quando chega, encontra a casa desocupada, varrida e arrumada.” - Mateus 12:43-44

 

Esse texto é poderoso.

A casa estava limpa.

Mas vazia.

O objetivo do Evangelho nunca foi deixar a casa vazia.

É trocar o governo da casa.

Não basta aquilo que dominava você sair.

Cristo precisa reinar.

Não basta abandonar o velho homem.

É preciso revestir-se do novo.

O Evangelho não produz apenas ausência de demônios.

Produz presença de Deus.

Não apenas libertação.

Habitação.

Não apenas limpeza.

Vida.

 

O PROJETO ORIGINAL

Quando Cristo nos liberta, Ele não está criando alguma coisa que nunca esteve nos planos de Deus.

Ele está restaurando o projeto.

Imagem.

Semelhança.

Filiação.

João escreve:

 

“A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.” - João 1:12

 

Aqui acontece uma mudança gigantesca de identidade.

De escravo para filho.

De órfão para filho.

De criatura distante para filho.

De alguém governado pelo velho homem para alguém sendo transformado segundo a imagem de Cristo.

Por isso Paulo diz:

 

“E todos nós [...] estamos sendo transformados segundo a sua imagem, com glória cada vez maior.” - 2 Coríntios 3:18

 

O cristianismo não é uma religião construída apenas para levar pessoas ao céu.

É o processo pelo qual o céu começa a recuperar pessoas na Terra.

O alvo é Cristo sendo formado em nós.

Seu caráter.

Sua compaixão.

Sua verdade.

Sua santidade.

Sua autoridade.

Seu amor.

Quanto mais o novo homem aparece, menos espaço existe para o impostor.

E quanto mais Cristo governa, menos território existe para o usurpador.

 

LIBERTOS PARA LIBERTAR

Mas existe mais.

Jesus nunca libertou seus discípulos para transformá-los em espectadores da libertação alheia.

Ele os chamou para continuar aquilo que Ele começou.

 

Jesus disse:“Assim como o Pai me enviou, eu os envio.” - João 20:21

 

Primeiro Ele nos encontra.

Depois nos transforma.

Então nos envia.

O homem liberto começa a libertar.

O restaurado começa a restaurar.

Quem recebeu luz começa a iluminar.

Quem conheceu a verdade começa a confrontar mentiras.

Quem foi alcançado pela graça começa a alcançar pessoas.

Foi exatamente isso que aconteceu quando Jesus enviou os discípulos:

 

“Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; deem também de graça.” - Mateus 10:8

 

Existe um ciclo do Reino.

Você recebe para transmitir.

É liberto para libertar.

É curado para curar.

É reconciliado para reconciliar.

É iluminado para iluminar.

A experiência com Deus que termina somente em você ainda não completou seu propósito.

O Evangelho nos transforma de territórios ocupados em agentes do Reino.

 

QUEM ESTÁ SENTADO NO TRONO?

No final, talvez a pergunta seja mais simples do que parece.

Quem está governando?

O impostor?

O usurpador?

Ou o Libertador?

Porque a velha natureza dirá:

“Eu sou você.”

O inimigo dirá:

“Você pertence a mim.”

Mas Jesus declara:

 

“Se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres.” - João 8:36.

 

A liberdade começa quando descobrimos que muitas das vozes que chamávamos de “eu” nunca representaram o projeto original de Deus.

Você não foi criado para ser escravo de seus impulsos.

Nem prisioneiro de seus traumas.

Nem propriedade das trevas.

Nem refém de sua história.

Você foi criado para refletir Deus.

Chamado para ser filho.

Transformado para parecer-se com Cristo.

Vivificado pelo Espírito.

E enviado para participar da libertação de outros.

O impostor precisa ser despido.

O usurpador precisa perder território.

E o Libertador precisa ocupar o centro.

Porque existe algo ainda mais poderoso do que conhecer a verdade.

É permanecer nela.

João encerra sua primeira carta com uma declaração extraordinária:

 

“Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” - 1 João 5:20

 

Não basta descobrir quem é o Verdadeiro.

É preciso permanecer naquele que é Verdadeiro.

Porque enquanto permanecemos nele, a mentira perde força.

O impostor perde identidade.

O usurpador perde território.

E o Libertador transforma aquilo que um dia foi uma prisão em território do Reino.

Talvez libertação seja exatamente isso:

não apenas descobrir de onde você precisa sair.

Mas finalmente descobrir em Quem você precisa permanecer.

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